Já ouvi de vários amigos técnicos que Pedagogia não prestava pois as pessoas pareciam "correr atrás do próprio rabo"e não chegar a lugar nenhum. Ninguém realmente se posicionava e firmemente abraçava uma corrente ou correntes filosóficas/pedagógicas para aplicar em sala de aula e mudar as coisas. Tudo era sempre o trinômio: Skinner-Piaget-Vygotsky, sendo este último o mais usado para justificar os mais diversos trabalhos em sala de aula. Também acusavam os pedagogos de não criarem novos instrumentos realmente importantes para a Educação e sim simplesmente usá-los, como as Redes
| Paulo Freire - Fonte: Revista Nova Escola |
Pensei, pensei, pensei e disse para mim mesmo: não posso partir de um ou dois exemplos para generalizar. Primeiramente, lembrei dos fundamentos da Pedagogia como ciência que procura estudar e criar meios para favorecer o processo de ensino e aprendizagem (uso os dois conceitos, pois assim é minha visão do processo educacional). Como tal, têm-se muito mais do que os psicólogos, filósofos ou epistemologistas que deram fundamentos a esta Ciência. Temos Paulo Freire e sua Pedagogia da Autonomia. Através dela pude cunhar meu próprio conceito de Educação, como processo pelo qual o ser constrói a si mesmo como autônomo, adaptável e atuante, dentro de uma sociedade humana que faz parte de um planeta (ecosistema). A complexidade desta definição é grande, embora pareça óbvia. Não sou professor para reproduzir conhecimentos prévios, troco com meus alunos experiências de vida e de conhecimento; não sou professor para só lecionar sobre o assunto da ementa, busco fazer links com nossa conjuntura e com nossa sociedade; não sou professor para reduzir o aluno a um mero ser cognitivo, mas o vejo como pessoa, completa, com problemas, emoções, aspirações e motivações e também me vejo como tal.
Com isso, tento criar meu material didático, tento abrir meu espaço de discussão que chamo de aula (do latim: aula - parte da capela onde se fazia a preleção a estudante, ou pátio). A aula é meu pátio para a vida e meus instrumentos são pensados para poder melhor discutir e orientar meus interagentes. Todo semestre aprendo mais coisas e espero que as pessoas que comigo participam das aulas aprendam. Com isso, uso Freire, Rogers, Vygotsky e agora J. Sweller e G.A. Cooper (http://en.wikipedia.org/wiki/Worked-example_effect). Há um grande mundo para quem é docente e precisamos sempre estar estudando não só nossas áreas de conhecimento científico, mas a própria ciência que está no Ensinar-aprender. Daí o papel do pedagogo em trazer à tona as questões importantes, os erros, os acertos, os percalços da docência. Pensar como podemos melhorar e ir além da escola, concretamente, em forma de práxis (teórico-prático-teórico).
Sou de base marxista/hegeliano, como alguns dos que estão lendo este artigo devem saber, e por isso a práxis para mim é importante, assim como a visão histórica de nosso processo docente e seu movimento dialético (http://pt.wikipedia.org/wiki/Materialismo_dialético). Neste ponto central, ponho minha visão de mundo e daí penso como as pessoas aprendem e parto para a questão de como ajudá-las a aprender coisas novas ou, mais especificamente, como ajudá-las a serem criativas. Isso, ser criativo é meu objetivo final como professor.
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| Dialética. Fonte: Internet. |
As escolas de Pedagogia hoje formam professores para atuar, quase que exclusivamente, no ensino fundamental,uma área muito nobre e sem dúvidas importantíssima para nosso desenvolvimento educacional. Mas será que o pedagogo realmente queria ser um professor de ensino fundamental? Estes pedagogos-professores são polivalentes, pois misturam português, matemática e ciências num só bolo e ainda têm que ser docentes estudiosos de sua própria prática. Ah, trabalhando 60h semanais e ganhando somente para manter uma vida de classe média apertada. Esta é a vida de Pedagogo-professor-fundamental. Dá realmente pra fazer tudo isso e ser um ótimo professor? As probabilidades são contra, mas ainda temos alguns bons que se mantém na batalha. Outro caminho para o pedagogo é, se der muita sorte e continuar seus estudos, entrar para o ensino superior e viver um pouco melhor. É isso mesmo que queremos da Pedagogia? É isso mesmo que é a Pedagogia?
| Livro de Salman Khan - Fonte: Internet |
Como acho que nós da área de exatas e tecnológicas temos que conversar mais com os pedagogos de forma objetiva, ler, estudar, compreender mais novas técnicas e metodologias. Saber quem é Ausubel (obrigado, Profa. Luciana por me apresentar este psicólogo da educação), Freire, Cañas, Sweller, Salman Khan, Piaget etc.
Estou lendo agora a construção do conceito de tempo e espaço na criança, escrito por Piaget. Isto está me fazendo ver que conceitos que julgamos ser inatos não o são. Assim, o que seria "óbvio" pode não ser realmente. Será que o aluno com quem estou falando conseguiu desenvolver sua visão geométrica tridimencional por completo? Será que isso não influencia nos problemas que ele está tendo em fazer rotações de sólidos? Pensei nisso pois sempre gostei de Geometria Euclidiana e nunca me dei muito bem com a visão cartesiana da Geometria. Consegui provar a expressão (a +b)ˆ2 = aˆ2+2ab+bˆ2 usando triângulos retângulos. Isso para mim é divertido. Mas se tento abstrair para expressões algébricas, perco-me. Isso foi uma falha no meu desenvolvimento de visão abstrata (fase operatória-abstrata vista por Piaget). Neste caso, estou trabalhando para resolver este meu problema e me adaptar a uma nova forma de ver o mundo, a forma algébrica.
Então, caros leitores! Refuto minha afirmação inicial: Pedagogia serve sim, para muita coisa! Mas precisamos rever como ela está e conversar mais com pedagogos, "audaciosamente indo onde nenhum outro docente jamais foi" (parafraseando a frase final da abertura de Star Trek). :-)
Wellington Wagner
Professor de Sistemas e Mídias Digitais

