sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Em que acredito...

No que acredito

Já se passaram vinte e seis verões desde que estive pela última vez em um mosteiro franciscano. Aprendi o catecismo católico dentre esta ordem de frades e muito me orgulho disso. Sempre senti algo que me ligava a todas as coisas – animadas e não animadas – da Natureza. Via como eram mágicas as luzes do arco-íris, o Sol, os seres vivos, o Universo e a mente humana. Minha fé surgiu daí, das maravilhas que podia sentir e de saber que algo nos entrelaçava, como as delicadas mas tenazes teias de uma aranha. Estive em outras religiões, além da católica apostólica romana, dentre elas a protestante pentecostal e a espírita kardecista e aprendi muitos dos ensinamentos do Budismo de origem indiana e o tibetano. Estudei a filosofia de Confúcio e vi como se tornou uma religião da moral. Também aprendi sobre os deuses indianos, do Candomblé,  o Tao, o Chi e o Zen Budismo. Encontrei sabias palavras no Alcorão e em muitos pensamentos do Islamismo. Estudei e pratiquei em minha vida muitas religiões e me mantive cristão por achar que muitos dos ensinamentos de Cristo tinham mais a ver com minha visão de Deus do que qualquer outro.

Embora só conheçamos Cristo pelas suas palavras escritas por outros – seus apóstolos – não me furtei de aprofundar-me mais e mais nos evangelhos canônicos e apócrifos. Assim me mantive teísta e idealista. Creio em um mundo melhor e que possamos conviver com nossa irmã Terra em harmonia. Um mundo sem violência, onde possamos nos orgulhar de sermos o que somos e que o termo humano não seja mais ligado a atos insanos de violência e destruição. Nunca vi causas tão grandes de mortes e destruição do que as causadas pelas religiões. Mas vi que estas em si não eram o problema, mas sim um canalizador da ambição, usura, inveja, violência e ganâncias humanas. As religiões criam comunidades e regras que são afetadas por seus criadores e podem se tornar veículos ou desculpas para o PODER. O poder de ter as coisas, de submeter as pessoas ao desejo de poucas ou de satisfazer desejos individualistas e vis. A religião, dentre o sofrimento humano, é um unguento, mas pode se tornar seu “ópio”.

Ao pensar sobre isso me tornei um duro crítico das religiões que cegam, das que tiram o amor e substituem pelo ódio. Das que marginalizam, das que não compreendem e nem buscam compreender o próximo, das que escondem a ganância, usura, intolerância e ignorância como sendo “verdades” inquestionáveis. Sou um humanista pois acredito no potencial criativo e transformador dos homens. E creio que as religiões possam canalizar estes sentimentos. Religiões que sejam tolerantes, que cultuem a diversidade, que não sejam instrumentos de adoração e sim de transformação. O deus em que creio nunca faria um ser vivo medir sua lealdade testando sua fé em detrimento de seu amor. Para mim fé e amor estão juntos, não podendo ser coisas contrastantes. Neste caso, meu deus não é o de Abraão e o de Jacó, pois este era um deus de um povo em uma determinada época e em um determinado contexto. Talvez fosse a única forma dos seres humanos desta época entenderem o respeito ao próximo, mas creio que não seja o caso de hoje. Meu deus não é o de Maomé pois este não pune, castiga ou recompensa. Ele é bondade pura, criação e beleza. Um fluxo inesgotável no qual resolvemos ou não entrar. Se entrarmos, seremos parte harmônica do todo que é Deus. Uso o termo “Deus” pois acredito no uno, na essência unificadora do universo. Naquilo que flui e nos liberta. Daquilo que era feito o espírito de Cristo e o levou a fazer grandes sacrifícios para mostrar o que era amar ao próximo. Este é o meu Deus, como o vejo e como me sinto. Deus est Caritas, Deus é Amor. E se Deus leva à Verdade, somente o amor leva à Verdade. E a Verdade é libertadora, ela não nos oprime, mas nos ensina e nos faz nos sentirmos melhores e bem. Ela não pode estar ligada a assassinatos, sequestros, estupros, intolerâncias, mortes, violência, escravidão. O meu Deus nunca poderá ser compatível com aquele que guiou as espadas dos cruzados, as bombas dos jihradistas ou o fuzil dos judeus. Não pode tolerar sacrifícios de seres vivos, não pode estar com aqueles que praticam o terror, quer seja de Estado ou grupos. Meus Deus me faz compreensível com a fé de meus irmãos e irmãs de todo o mundo, porém, permite-me combater as injustiças que a fé possa criar. Gosto muito da expressão “Alá, o misericordioso”, pois demonstra que a verdadeira essência está na misericórdia. Não está nas posses materiais ou no castigo ou nas venturas. Não creio em um deus ou deuses que castigam as pessoas, que fazem com que elas fiquem ricas, que lhes dê presentes ou lhes faça melhor que outras. Isto é demasiado humano para ser Deus. É como olhar em um espelho e dizer que a imagem projetada é Deus. Só somos a imagem de Deus quando dele fazemos parte. Eis no que creio.

Ateísmo, agnosticismo ou religiosidade não fazem boas pessoas. Boas pessoas fazem destas crenças ou não crenças algo bom. E ser bom é entender que devemos amar “uns aos outros” como irmãos, sejam humanos ou não. Se somos todos criaturas de Deus, somos todos irmãos. Francisco de Assis compreendeu muito bem isso. Ghandi também viu a beleza desta afirmação.

Vi tantos milagres, tantas belezas, tantas coisas nesta minha vida que não poderia deixar de acreditar cada vez mais em Deus. Sou o que sou e não quero que ninguém siga meu deus, mas descubra dentro de si o seu deus. Que ele o guie para o amor e a humildade. Que o torne uma boa pessoa. Assim, creio eu, teremos descoberto o mesmo Deus, independente da religião em que estejamos. Creio que as pessoas precisem das religiões, elas os enlaçam e promovem sua fé. É algo que temos há milhões de anos. Faz parte de nós. No entanto, como deve ser esta religião é nossa responsabilidade. Nenhum profeta, apóstolo ou homem santo pode ser responsabilizado por nossos atos. Temos livre arbítrio, ou seja, somos guiados por nós mesmos. Por nosso consciente e inconsciente, pelo que faz nosso self, nosso Eu.

Não quero evangelizar ninguém, não quero mostrar a verdade a ninguém, sigo o que acredito e procuro agir conforme minhas crenças. Meu exemplo é meu evangelho, venho anunciá-lo a todos que queiram ouvi-lo através de meus atos. Estou longe de ser o que gostaria de ser, da pessoa que acho que deveria ser - uma boa pessoa - mas “sem dúvidas não sou mais o que era”. Dou graças a Deus por isso!

Gosto de rezar no silêncio acolhedor das igrejas católicas, mas já encontrei a Deus olhando em minha janela e no sorriso de meu filho. Procure a Deus e o achará “embaixo de cada pedra, sob troncos, em tudo que o rodeia”.

Por fim, peço aos que amo que leiam o que escrevo e procurem refletir. Minhas aflições e minhas felicidades são meu caminho para me tornar uma pessoa melhor e, talvez, eu veja ao meu Senhor no final desta jornada.

Em que acredito? Acredito no Universo, cujas leis estamos tentando compreender; acredito na Vida como o mais fantástico milagre que já conheci; nos seres humanos, pois seu potencial é impressionante; e em Deus, pois é o caminho, a verdade e a luz que procuro. “Ainda que eu esteja no vale escuro da morte, nada temerei” pois meu Deus está comigo e está em mim.

Deus abençoe a todos!