A relação do ser humano com o conhecimento é, acima de tudo, uma luta pela sua adaptação em um mundo onde este se encontra e cuja transformação se dá por um processo dialético. Desta forma ser humano e mundo se transformam em um ciclo de tese, antítese e síntese. É partindo desta visão dialética de transformação que pretendo expor nas linhas a seguir o processo de interdisciplinalidade e sua ligação com a complexidade do conhecimento humano. Diferente de outros animais a transformação humana do mundo não procura manter a natureza das coisas, ou seja, o equilíbrio natural sobre o qual as criaturas vivas se reproduzem e morrem. O mundo é para o ser humano um objeto a ser humanizado, ou seja, ele procura torná-lo seu, e assim vem sendo no decorrer da história humana que se dá desde que os primeiros homo sapiens coletores-caçadores começaram a criar suas ferramentas "humanas" até o processo de industrialização que reduziu a natureza a mera matéria prima a ser "melhorada" na forma de produtos consumíveis pelo ser humano. Da mesma forma se tratou o conhecimento humano, como instrumento de adaptação para ativos a serem negociados por empresas. Tal fenômeno de transformação do conhecimento e da própria história do homem ainda está em movimento. Estamos no meio de um mar cujo horizonte não vislumbramos, a cada onda pensamos ver seu fim, mas logo percebemos que deste estamos ainda distantes.
Pensar o conhecimento como instrumento de adaptação é por demais perigoso para aqueles que não enxergam a grandiosidade que é a adaptação do seres vivos. Tal definição do conhecimento poderia reduzi-lo a mero cognitivismo e, portanto, a informações estruturadas e soluções de problemas apreendidos. Conhecer é mais do que saber racional, é saber de corpo inteiro. É sentir, raciocinar, julgar, apaixonar-se e criar. Todos estes processos envolvem a fisiologia humana como um todo e torna o conhecimento algo complexo. Perde-se a fórmula cartesiana do "cogito ergo sum", para dar-se espaço ao Ser. Sou mente-corpo-ego (self). Como explica Freud em seu O Mal Estar da Civilização, o Id que predomina em nosso nascimento, que é pura energia psíquica canalizada de nossos sentidos e órgãos, dá espaço ao nosso Ego, que interage com a mãe em primeiro lugar e se torna um com ela. Este frágil Ego expande-se para tornar o mundo um reflexo de si mesmo e de sua vontade. A separação do Ego do Outro - aqui uso a forma de Lacan de explicitar o além do eu - é dolorosa, mas se faz necessária para a própria sobrevivência e adaptação do ser humano aos inúmeros percalços que lhe aguardam. Sua maturação fisiológica reflete-se em seu cérebro que se torna maior e permite operações cada vez mais difíceis, deixando para trás o cérebro de nossos primos chimpanzés e se definindo como humano de fato. Somos tão pouco naturais com nossos instrumentos, nossas técnicas e tecnologias. Ser humano é Ser não-natural e ao mesmo tempo fazer parte da natureza. Novamente percebe-se aí uma trama dialética que nos faz construirmo-nos ao passo que construimos nosso mundo. O choque de nossso-mundo-humano com o mundo-natural está se fazendo visível atualmente, nas questões ambientais, nas doenças que nos flagelam e no desequilíbrio que se vê em todos os nossos níveis, do individual ao social. Matamo-nos a cada passo que vivemos. Mas deixando de lado a questão do humano no mundo, voltemos ao Conhecimento. Se este é como explicitado acima, um conjunto de relações complexas de nosso próprio corpo com o mundo exterior, com o Outro que se faz como oposição a nós e como referencial para nossa caminhada, então ele é Complexo em sua natureza. Ele é formado de partes relacionadas intrinsecamente e cujas relações transformam tais partes, de forma tal que não se pode entender as partes sem as relações a ela relacionadas. Conhecimento é Complexidade, como diz Edgar Morin e para trabalharmos tal conhecimento é preciso que entendamos as relações nele construídas.
O mapeamento das relações construídas no processo de conhecer foi proposto de forma discreta por Joseph Novak, em seus Mapas Conceituais, que apontam para os conhecimentos significativos construídos pelo ser humano e que permitem tornar conscientes conceitos e suas ligações a fim de que possamos refletir de fato sobre o que conhecemos. Mas os Mapas Conceituais são imagens estanques de um processo em andamento, um processo em movimento e só trabalha com uma faceta do Conhecimento, aquilo que é tornado conceito, logo, dentro da dimensão do racional e da semiótica. Não sentimos nos Mapas Conceituais, não rimos nestes artefatos, não Somos tais artefatos. Mas eles nos servem como um filme ou fotografia por onde começamos a trabalhar com o que é significativo para nós. Ou seja, nos permite termos uma ótima ferramenta para conseguirmos extrair dos seres humanos o que lhes é significativo do ponto de vista do Conhecimento. Tal como Carl Rogers preconizou, trabalhar a partir do significativo nos permite ter uma base sólida para auxiliar os seres humanos como pessoas, ou seja, como um todo. Este "significativo" tem haver com as vivências, ansiedades, perspectivas, conhecimentos, medos e outras características que são mais amplas que o ser-cognitivo. No entanto, entender esta complexidade que é o ser-humano-ego - alguém que existe dentro de uma coletividade e ao mesmo tempo se mantém como indivíduo- trás-nos um problema interessante para aqueles que se propõem a serem educadores. Ser educador é educar para a vida, como diria Paulo Freire, e a vida é algo mais amplo que uma tabuada ou uma regra gramatical. E são tantas informações que nossas ciências criaram, com suas respectivas tecnologias e técnicas. Como, enquanto educador, posso trabalhar com tamanha massa de informações e com tantas pessoas que se encontram em minha sala de aula?
A interdisciplinaridade seria um primeiro passo para tal tarefa do educador. Como fragmentamos nossos conhecimentos científicos a fim de aprofundá-los, precisamos trabalhar com as pessoas as interrelações destes saberes de forma tal que eles partam de seus conhecimentos significativos e criem novos significados. Educar é, portanto, auxiliar as pessoas a poderem ser autônomas em seu processo de conhecimento, críticas em sua visão de mundo e criativas. Assim, a interdisciplinaridade deve ser inserida no âmbito das instituições de educação como uma proposta, em primeiro lugar de discussão dos professores sobre seus saberes individuais e como estes se relacionam, e em segundo lugar ter como base o que efetivamente é significativo para as pessoas. Ausubel trabalha, tal como Rogers, com o conceito de Aprendizagem Significativa, porém, sua abordagem ainda é cognitivista no âmbito de suas ponderações. Rogers já trabalha o ser humano como pessoa, ou seja, como ser-acima-do-meramente-cognitivo. Se tomamos estes dois pontos como base então teremos condição de montar um projeto que permita-nos tentar explicitar as interrelações dos diversos saberes não só no que tange a um ano letivo, mas por todo o ciclo de formação, quer fundamental, médio ou superior.
É uma obra e tanto fazer um projeto para cobrir todo um ciclo de aprendizagem, assim, creio ser o caminho mais natural ter vários projetos que possam ser trabalhados, ano a ano, fechando os objetivos maiores do ciclo de conhecimento que se quer atingir juntamente com as outras pessoas. Note que educador e educando são parceiros neste processo. Andemos em pequenos passsos, "baby steps", como dizem os norte-americanos de língua Ânglo-saxônica. E como fazer? Vejamos um exemplo prático.
O curso de Sistemas e Mídias Digitais (smd.virtual.ufc.br) da Universidade Federal do Ceará permite que seus cursistas possam ser habilitados em três áreas: Jogos Eletrônicos, Sistemas Digitais (projeto e desenvolvimento de softwares) e Mídias Digitais Interativas. Bem, o primeiro passo é conseguir fazer com que as pessoas que ingressem neste curso possam ter dimensão do todo. Do que são Sistemas e Mídias Digitais. Pra tanto, seus professores deverão ter esta dimensão só então poderão propor projetos interdisciplinares onde as várias disciplinas ministrada se encontrem em uma tramas de uma teia. Não é necessário se ter um produto ou artefato final, mas o conjunto coordenado de atividades, discussões e interações que vão além das disciplinas em si. Um professor de programação pode trabalhar com construção de jogos educacionais em sua primeira abordagem desta matéria e um professor de tecnologias educacionais pode dar base para que se possa pensar nestes jogos. Veja que o projeto e a discussão constante dos professores é fundamental, pois estes devem começar seus cursos a partir do que é significante para os alunos e tornar seus temas algo que possa se tornar significante no decorrer do curso. Mas tal significância só se dará se for relacionada a outras áreas, a teia de conhecimento necessária para o ser humano realmente conhecer.
Estas são palavras iniciais para uma grande e profunda discussão que é a Interdisciplinaridade. Mas como primeiro exposto, este autor já se dá por satisfeito. Assim, termino citando Karl Marx em suas Teses sobre Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo".
Wellington Wagner
domingo, 12 de julho de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Sou um arqueiro!
Sou um arqueiro! Um amigo, Victor Alessandro, perguntou-me há quanto tempo praticava arco. Fazem hoje exatos 1 ano e 2 meses. Pouco tempo de experiência mas seguidos de longas horas de estudo. Tive o prazer de aprender a arquearia do Pakua com meus Shifu Léa Nogueira e Lucas Meireles! Atirar parado, atirar em movimento, atirar em círculo, atirar sentindo que o arco e a flecha são extensões suas e que o acerto do alvo é apenas uma consequência de seu próprio auto-aperfeiçoamento. Estudei como os antigos mongóis atirVam com seus arcos, estudei como os Manchus da última grande dinastia da China, Quing, atiravam. E por fim estudei o estilo Otomano de arco. Cada detalhe da postura, da empunhadura, da puxada, das flechas, da velocidade do tiro, do ritual para se atirar, é uma viagem por cada uma destas culturas. Também tive o prazer de ter aulas de arquearia moderna olímpica e sua disciplina e precisão (com os instrutores André Teixeira e Paulo Henrique Barbosa Rocha). Atirei em um alvo à dezoito metros de distância. Doze flechas em uma aglomeração de vinte centímetros. Não é nada olímpico mais é um exercício único de precisão. Para mim foi algo maravilhoso.
Para um arqueiro cada flecha fora do acerto é uma lição que não pode afetar em sua segurança quanto a próxima flecha. Assim, passado torna-se aprendizagem e futuro conhecimento. Essa é a disciplina do arco para mim. Atirei centenas de vezes por semana em pouco mais de um ano. Foram milhares de flechas, em diferentes estilos, em diferentes situações, em diferentes humores. O arco é reflexo da vida do arqueiro. É seu caminho expresso em uma fração de minuto. Aprendi isso é sempre estará comigo. Por isso sou um arqueiro.
Por fim, senti que não sou eu mais que conduzo o arco mais o fazemos em movimento dialético, onde eu sou conduzido por ele e de volta o conduzo. Eis a dialética do Arco e a beleza do Arquerismo!
Para um arqueiro cada flecha fora do acerto é uma lição que não pode afetar em sua segurança quanto a próxima flecha. Assim, passado torna-se aprendizagem e futuro conhecimento. Essa é a disciplina do arco para mim. Atirei centenas de vezes por semana em pouco mais de um ano. Foram milhares de flechas, em diferentes estilos, em diferentes situações, em diferentes humores. O arco é reflexo da vida do arqueiro. É seu caminho expresso em uma fração de minuto. Aprendi isso é sempre estará comigo. Por isso sou um arqueiro.
Por fim, senti que não sou eu mais que conduzo o arco mais o fazemos em movimento dialético, onde eu sou conduzido por ele e de volta o conduzo. Eis a dialética do Arco e a beleza do Arquerismo!
Assinar:
Comentários (Atom)
