domingo, 18 de abril de 2010

Sobre a Religião e Deus

Nos últimos anos venho vivenciando, na cidade onde moro, uma crescente manifestação de Igrejas Evangélicas (pentecostais) e uma igualmente expressiva reação católica. Instigado por estes movimentos religiosos resolvi compartilhar algumas concepções que construí no decorrer destes últimos dez anos e que hoje me servem de orientação no que diz respeito às questões espirituais e de crença em um deus.
Inúmeras são as evidências que mostram ter sido a Religião motivo para episódios sangrentos da História Humana. Desde o tempo do Antigo Egito e dos deuses encarnados que comandavam a terra – os Faraós – muitos morreram ou assassinaram defendendo suas crenças religiosas, o que pode nos levar a conclusão de que toda Religião é maléfica e só causa disputas e discórdias entre os homens. Além de embotar o olho da Razão, com crendices e mistérios ditos ininteligíveis pelos homens. Melhor seria que a Religião não existisse e as pessoas apoiassem suas decisões e verdades nos fortes alicerces da Ciência. Um mundo racional e científico seria muito melhor do que um coberto pelas trevas da ignorância, tão bem vista nos caminhos tortuosos da Religião. Mas seria esta realmente uma terrível vilã como apregoa o cientista evolucionista Richard Dawkins ou poderia ser algo benéfico e necessário para os seres humanos? A meu ver a Religião como um conjunto de dogmas e regras para condução moral dos seres humanos e sua comunhão com um criador divino é mais um construto humano e, por isso, possível de desvirtuamentos e contradições típicas das relações coletivas humanas. A religião é humana e, portanto, acontece dentro das relações políticas, sociais e econômicas humanas, não fugindo ao aspecto muitas vezes vil e perverso do homem. Ela pode ser usada como um motivo para guerras, tanto quanto os aspectos de limites territoriais, direitos naturais e razões revanchistas, utilizadas em vários episódios bélicos da Humanidade. Roma invadiu a Gália no século IV A.C. alegando, em parte, o direito de expandir seus territórios, “civilizando” as terras bárbaras da península Ibérica. Este motivo é tão plausível – e vil – quanto o de invasão de Jerusalém para proteção da fé católica, reinvidicada pelos cruzados do século XII.   A Religião, portanto, pode se tornar um motivo político, mesmo que não seja destrutiva em sua essência. Servindo aos interesses de indivíduos ou Estados, a Religião também pode ser um veículo ideológico poderoso, reprimindo tendências contrárias a determinados interesses e ressaltando “valores morais” úteis a um dado sistema sócio-econômico, como acontece com a relação Protestantismo-Capitalismo levantada por Max Weber.  Uma pessoa não consegue tanto dinheiro e sucesso que outra por não ter trabalhado bastante e não ter sido um bom cristão! Você já ouviu alguma afirmação como esta? Trabalhar e produzir em suas empresas e indústrias é o dever imposto por um deus que castiga os ociosos. Mas a quem tais interesses realmente servem, a outros homens ou a uma divindade? Aos homens, claro! E seus próprios interesses. Porém, esta mesma religião que perversamente pode afligir a Humanidade, também permite que pessoas sejam solidárias com seus próximos, podendo unir um povo perseguido e expatriado ou servindo de amparo durante tempos tumultuados e cruéis. Pode criar comunidades de pessoas que não enxergam as diferenças  entre si, somente as semelhanças. Religiões podem ligar pessoas para realizar grandes e benéficas ações, como Martin Luther King Jr. nos mostrou ser possível nos EUA e Gandhi na Índia. A Religião é Humana e, por isso, implicitamente contraditória, cheia da dialética que rege o existir humano.
Devido ao seu aspecto contraditório, creio que a Religião deva ser praticada com consciência e baseada no princípio fundamental do respeito ao outro. Ela é um fenômeno social e não uma doença que precise ser expurgada ou curada. Não sei se poderia ser extinta do âmbito da humanidade por ser parte de sua essência cultural. Ela faz parte de algo que os seres humanos comungam desde os primórdios de sua história: a certeza que há algo além deles, algo maior que pode ajudá-los a ser diferentes do que são ou simplesmente diminuir sua solidão no cosmo. Creio que o rito religioso tenha vindo antes do bisturi da Ciência por estes motivos. A Ciência  disseca a Realidade, a Religião faz com que o homem tenha sentido dentro desta. Por enquanto, esta Religião que pode assumir diversas faces é o que preenche o vazio existencial dos indivíduos e dos grupos. Acredito que a Ciência, como o quer o Sr. Dawkins, não vai suprir isto nunca, pois ela é – e deve ser - em sua essência dúvida e os homens precisam de algumas certezas. Se a Ciência se torna certeza imutável e única é tão perigosa quanto o dogma religioso. É a lógica do anti-humano, o frio da certeza inquestionável. O movimento eugênico do início do século XX nãos deixa mentir sobre esta questão.  A certeza eugênica era científica e não religiosa e por sua causa muitos morreram ou foram mutilados para sempre. Raça superior cientificamente criada era o que a Eugenia queria. Preconceito mortal e cruel foi o que se tornou. A Ciência é humana e pode ser uma arma ou ungüento em uma sociedade. A verdade científica pode ser tão perigosa quanto a verdade religiosa, não se iluda.
Haja vista as razões acima expostas que me fazem ser tão precavido com a Religião quanto com a Ciência é que conduzo minhas ações e concepções dentro de uma religião mais humanista, de amor, tolerância e respeito ao próximo. Meu deus é aquele que Spinoza preconizava em seus escritos, uma inteligência que está em todo o cosmo e é ele mesmo o cosmo. Sou, portanto, parte de uma inteligência maior que tem sua manifestação no universo inteiro. Para mim, somos uma célula em um imenso organismo e para sobrevivermos temos que estar em equilíbrio com tal organismo, para não nos tornarmos um câncer.
O panteísmo baseado em Spinoza, para mim, deve ser a religião que melhor se adéqua aos homens, sem dogmas eternos, só verdades consensuais e contextuais, uma religião repleta de devir. Um deus que é o todo e a parte. Estes são a minha religião e meu deus, sem os quais sou só e vazio, sou triste e sem propósito. Esta seria melhor para todos? Creio que sim, mas cada um tem que descobrir por si mesmo se esta verdade minha é sua verdade também. Devo respeitar cada opinião, buscando o melhor para mim e para o outro, que deve ser sempre diferente da iniqüidade e da crueldade.
Creio que o ser humano deva ser tolerante sem ser omisso e mostrar suas verdades sem ser dogmático. Assim, entendo os protestantes, católicos, mulçumanos, hinduístas, budistas, céticos e tantos outros que assumem posições religiosas ou cético-dogmáticas. O que não quer dizer que esteja de acordo com elas ou que não busque mostrar suas imperfeições e contradições que vão de encontro ao bem viver humano e ao equilíbrio do cosmos. 
Estou certo? Não sei, mas creio que este seja um bom caminho a se seguir e, por isso, tenho fé!

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